O Ciclo de Ur-Zahar

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Conto os feitos de Ur-Zahar, sacerdote filho de Gudea-En, da vetusta linhagem de Utnapishtim. Foi Ur-Zahar o primeiro consagrado a dominar os ciclos do tempo, tornando conhecidos os arcanos que somente Simanu, aquele que ordena o arrefecer e o aquecer do sol, conhecia. A ele fora concedido o domínio sobre a sabedoria divina, sendo elevado como varão de grande poder.

Desde a tenra idade, serviu como aprendiz no Alto Templo, tornando-se douto nos saberes dos deuses e dos homens. Ao atingir a idade sacerdotal, tomou por esposa uma filha de Ninsikila, jovem de formosura ímpar e talentos modestos. Ela ofertou ao templo o seu primogênito; todavia, num inverno abrupto, o infante pereceu pela fome — um presságio de que o destino de Ur-Zahar não residia junto à sacerdotisa, mas junto aos deuses.

Rasgou suas vestes e, em nudez, prostrou-se dia após dia até que a lua abandonasse o firmamento. Recusava o alimento e o cobrir do corpo. Foi tomado por um assombro prolongado, servindo na alta torre do templo incessantemente, e nenhuma palavra de consolo lhe era útil.

O seu tormento iniciara-se no décimo terceiro dia do oitavo ciclo do Ano dos Tempos Sem Domínio, e perdurou sua vigília nua até o quarto dia do nono ciclo. Quando, por fraqueza, seu corpo recusou-se a manter-se ereto, foi levado pelos sacerdotes às tendas das curandeiras, versadas nos mistérios da carne, que o trataram conforme seus ofícios.

Livraram-lhe do peito as aflições que lhe roubavam a lucidez. Por anos, exilou-se na torre que primeiro vislumbrava Shamash. De louco muitos o alcunhavam; e quando transitava entre os corredores para buscar as tabuletas de argila e o estilete de cana, diziam os que o viam: “O desgosto quebrou-lhe o espírito. Tornou-se um Inapto entre os Lúgal.”

Ele, porém, não se importava com os escárnios. Se soubessem o que engendrava em seu exílio e o que traria para todos, ter-lhe-iam beijado os pés; as mais belas virgens da primavera lhes seriam trazidas como dádiva, e, tomadas como esposas, dar-lhe-iam vastos descendentes para compensar os infortúnios trazidos pelos céus.

Após cento e cinquenta ciclos lunares, desceu ele. Semelhante a um demente, bradava segurando uma grande tabuleta, e anunciava a todos: “Dos deuses, recuperei o que estava oculto! Não nos deram o saber, mas deles o tomei, pois Simanu teve de mim compaixão e revelou-me, pelas estrelas e pelo firmamento, o segredo velado.”

Na praça clamava. Foi cercado pelo povo que, em sussurros, indagava se não era aquele o sacerdote que enlouquecera, punido pelas divindades. Mas ele não lhes dava ouvidos e, de súbito, correu em direção ao Ensi supremo. Passando pela guarda que o seguia, ajoelhou-se perante o soberano e, estendendo a tabuleta, proclamou:

“Sou Ur-Zahar, filho de Gudea-En. Perdi meu primogênito pela ira celeste e, por longo tempo, supliquei aos céus que me viraram a face. Contudo, não o fez Simanu. De todos que perderam seus filhos, filhas, rebanhos e grãos, ele teve piedade e a mim revelou a mecânica dos dias. A ti, filho de Anu, entrego o que é teu por direito: o domínio sobre o Tempo.”

O Ensi, cuja carne é tida como a própria carne de Anu, tomou a tabuleta das mãos trêmulas de Ur-Zahar. O silêncio abateu-se sobre a praça, pesado como o ar antes da tempestade, pois tocar o Rei-Sacerdote sem permissão era crime de sangue. Contudo, os olhos do soberano não buscavam a punição, mas percorriam as marcas de cunha na argila, decifrando os ciclos das estrelas e a geometria das estações ali gravadas.

Naquele dia, o Ensi não proferiu sentença de morte, mas ergueu Ur-Zahar do pó. Decretou que o saber ali contido era perigoso demais para os ouvidos da plebe e sagrado demais para ser esquecido. Assim, sob o manto da noite e das pedras do templo, foi fundada a ordem dos Massartu Simanu — os Guardiões de Simanu.

Estes eleitos, apartados dos demais sacerdotes e do povo, juraram proteger o segredo das estações com a própria vida. Criou-se então a grande divisão:

  • Ao povo, cabia o trabalho e a obediência aos sinais;
  • Aos sacerdotes comuns, os ritos e as curas;
  • Aos Guardiões, o cálculo silencioso do amanhã;
  • E ao Ensi, a voz divina que ordenava o plantio e a colheita.

A cidade transformou-se. Não mais se plantava ao sabor do acaso, nem se temia a cheia repentina dos rios, pois Ur-Zahar e seus discípulos previam a respiração das águas. Quando os Guardiões sinalizavam o tempo propício, o Ensi falava, e a terra era aberta.

Desta sabedoria nasceu a Lei do Tributo Sagrado. O povo, grato pela certeza do grão, entregava de bom grado a terça parte de tudo que a terra dava aos grandes Celeiros do Rei. Não era roubo, mas garantia; pois quando o sol castigava a terra ou a praga tentava devorar os campos, os portões dos celeiros se abriam e o Ensi, como pai bondoso, devolvia o sustento àqueles que o serviam.

A fome, antiga inimiga que rondava as muralhas, foi banida para as terras distantes. Enquanto as tribos vizinhas, ignorantes dos segredos de Simanu, pereciam sob o sol inclemente ou viam suas sementes apodrecerem na lama das chuvas tardias, a cidade de Ur-Zahar florescia em ouro e trigo.

Desta disparidade nasceu a expansão do império. As cidades vizinhas, enfraquecidas pela escassez, não precisaram ser conquistadas pela espada; elas vieram voluntariamente, curvando-se para viver sob a sombra do Rei-Sacerdote. Contudo, a salvação tinha seu preço, e a balança do templo pesava diferente para os filhos da terra e para os recém-chegados.

Aos cidadãos originais, o tributo permanecia a terça parte. Porém, aos vizinhos acolhidos e às cidades anexadas, o Ensi decretou a Lei dos Dois Quartos. A metade exata de todo o grão, de todo o vinho e de todo o azeite produzido por mãos estrangeiras deveria ser entregue aos celeiros centrais.

Pesado era o fardo de entregar dois quartos de seu suor, mas doce era o pão que a fome não lhes permitia recusar. Aceitaram a servidão da colheita para não sofrerem a liberdade da morte. Assim, os celeiros de Ur-Zahar transbordaram ainda mais, custeados pelo labor dos vizinhos, permitindo que a casta dos sacerdotes e a nobreza se tornassem ainda mais opulentas e dedicadas aos mistérios do céu, enquanto os povos do entorno garantiam, com suas costas curvadas, a glória do Templo.

Não bastasse haver dominado o tempo, Ur-Zahar voltou seus olhos para a terra, pois sabia que de nada valia prever a colheita se o rio, em sua fúria, a levasse, ou se o sol, em seu ardor, a secasse antes da hora.

Assim, o segundo grande feito de Ur-Zahar foi o Sangrar da Terra. Ele desenhou na areia o que vira nas estrelas: linhas retas e curvas perfeitas. Ordenou que o povo, agora numeroso e forte pelo pão abundante, cavasse a terra não para plantar, mas para guiar as águas. Sob sua ordem, ergueram-se diques altos como muralhas e abriram-se valas profundas como feridas, que levavam as águas do grande rio para o coração do deserto estéril.

O povo murmurou, cansado da pá e da picareta, mas quando a seca veio e o rio minguou, as valas de Ur-Zahar mantiveram as águas represadas, e os campos beberam enquanto o mundo ao redor esturricava. E quando a cheia veio rugindo como leão, os diques a domaram, e a força das águas serviu apenas para nutrir o lodo fértil, sem derrubar uma única casa de tijolo cru. Ele ensinou aos homens que a água, tal qual o tempo, podia ser governada pela razão.

Muitos anos se passaram, e a barba de Ur-Zahar tornou-se branca como a espuma do rio, e suas costas curvaram-se como o arco do céu. Tendo vivido cento e vinte ciclos solares, sentiu que o sopro de Simanu o deixava.

Não morreu como um homem comum, tremendo de frio ou dor. Subiu pela última vez à Torre de Observação, apoiado nos ombros do jovem Sumo-Sacerdote da ordem dos Guardiões. Lá, contemplou a cidade dourada, os celeiros cheios e os canais brilhando sob o sol como veias de prata na terra.

Reuniu os doze mestres da ordem ao seu redor e entregou-lhes sua última tabuleta, aquela que jamais fora lida, contendo o cálculo do Grande Ano, o ciclo onde todas as estrelas retornam ao início. Disse-lhes apenas: “O tempo é um círculo, e meu passo neste arco findou. O que é do céu, ao céu retorna.”

Sentou-se voltado para o nascente e, quando Shamash tocou-lhe a face com o primeiro raio da manhã, seu espírito partiu, silencioso e sereno.

O luto durou setenta dias. O Ensi decretou que Ur-Zahar não fosse enterrado na terra comum, mas num esquife de pedra sob o piso do templo, onde os Guardiões pisariam eternamente para observar os astros. Nas praças, não se dizia que ele morrera, mas que fora chamado para contar as estrelas ao lado de Simanu. E assim, o homem tornou-se lenda, e a lenda tornou-se a fundação do Império.

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