0.1 Lição 3: Dativo
Dentre as quatro primeiras lições — até onde avancei na leitura —, esta foi a mais difícil. Li-a e reli-a diversas vezes, assisti a aulas e realizei pesquisas para sintetizar o aprendizado; contudo, descobri quão pouco de fato aprendi. Trata-se de um emaranhado de termos e definições simplificadas que me causam confusão.
Portanto, reescrevo esta nota. Iniciarei, como anteriormente, pelo verbo, porém antes devo sintetizar elementos importantes:
0.1.1 Verbo
Do latim verbum, que significa “palavra”. Na gramática, o verbo é uma classe de palavra variável — ou seja, que sofre flexões de tempo, modo, voz, número e pessoa (e.g., corro, corri) — e constitui o predicado.
É também a unica unidade linguística capaz de situar por si só um fato no tempo, exprimindo:
- Ação: Um processo dinâmico (correr, destruir).
- Estado: Uma condição ou qualidade (ser, estar, parecer).
- Fenômeno da natureza: (chover, ventar).
- Ocorrência, Desejo ou Existência: (acontecer, haver, querer).
0.1.1.1 Predicado
O predicado é a unidade sintática da oração que compreende o verbo e a declaração acerca do sujeito. Essa relação entre o sujeito e o verbo é chamada de predicação.
O verbo, no interior do predicado, possui a propriedade da valência, a qual determina o número de argumentos (ou termos integrantes) necessários para a plenitude sintática.
Essa propriedade permite classificar o verbo em dois tipos primários, conforme sua função: ou ele atua como o núcleo da informação, ou como o elemento de ligação entre o sujeito e o seu atributo (predicativo). Ao primeiro tipo, atribui-se a designação de verbo nocional; ao segundo, a de verbo não-nocional.
O núcleo de informação do predicado é o termo que sustenta o valor semântico essencial da declaração; sua ausência tornaria ininteligível o que se afirma sobre o sujeito. Já o predicativo refere-se à função sintática que atribui um estado, qualidade ou classificação a um substantivo (seja ele o sujeito ou o objeto da oração).
Em sintase:
0.1.1.2 Nocionais ou Não-Nocionais
Nos verbos nocionais (ou significativos), o verbo é o núcleo porque ele sozinho descreve o processo, a ação ou o fenômeno. O foco da mensagem está no “fazer” ou “acontecer”. Exemplo
O sol nasceu.
Nasceu é o núcleo. A informação central é o processo de nascer. Então o predicado é verbal.
Nos verbos não-nocionais (de ligação/cópula), o verbo é semânticamente “vazio” ou “fraco”. Ele funciona apenas como um elo lógico. O núcleo da informação — aquilo que realmente se quer declarar — é o Predicativo. Exemplo:
A solução é simples.
Note que aqui a palavra “simples” é o nucleo da informação, e o verbo “é” apenas conecta o substantivo “A solução” a informação central “simples”. Então o predicado é nominal.
A estrutura simples do predicado da a ele um nucleo, porém pode ele ter dois nucleos, sendo portanto um predicado verbal-nominal, mas o verbo continua sendo nocional. Vou repassar para sintetizar:
| Predicado | Verbo | Núcleo |
|---|---|---|
| Verbal | Nocional | Verbo |
| Nomenal | Não-Nocional | Predicativo |
| Verbal + Nominal | Nocional | Verbo + Predicativo |
0.1.1.3 Termos Integrantes do Verbo
Os termos integrantes dizem respeito àqueles dos quais o verbo necessita para uma sintaxe da oração completa. São eles:
Complemento Nominal- Complemento Verbal
- Agente da Passiva
O complemento nominal é o termo exigido por um nome (substantivo, adjetivo ou advérbio) — e não pelo verbo — para completar o seu sentido. Eu ignorei esse termo integrante, pois notei que ficaria nisso infinitamente; já faz dias que estou estruturando essa nota e sempre descubro ter entendido mal os detalhes. Portanto, focarei na lição, indo para o complemento verbal.
O complemento verbal é usado quando o verbo é transitivo. Darei alguns passos atrás até chegar na transitividade do verbo.
O verbo é analisado sob três aspectos:
- Semântica (Significado): É o que ele exprime, como ação (correr), estado (ser), fenômeno da natureza (chover) ou ocorrência (acontecer).
- Morfologia (Forma): É como ele se altera para indicar tempo (presente, passado, futuro), modo, número e pessoa.
- Sintática (Função): A função principal do verbo na oração é ser o núcleo do predicado. É em torno do verbo que a frase se organiza.
OK, estruturei as formas de analisar um verbo, o que vai ajudar a entender que: o verbo tem significado (semântica), e esse significado pode se encerrar no próprio verbo em relação ao sujeito, como em: a ave voa. O sentido do verbo voar dá significado à frase de modo completo.
Isso implica que o verbo não precisa ter outro elemento para que sua semântica esteja completa. Porém, em: ele pediu. O verbo pedir não encerra sua função semântica em si mesmo em relação ao sujeito; é necessário acrescentar o que pediu. Exemplos:
- Ele pediu silêncio
- Ele pediu por justiça
- Ele pediu um favor a você
- Ele pediu a você um favor
- Ele pediu a pizza quente
- Ele pediu em sua casa silêncio
- Ele pediu ajuda desesperadamente
Portanto, verbos cuja função semântica não se encerra em si mesma são chamados transitivos; e, se o é, ele transita.
0.1.1.4 Transitividade
Transitar é mover-se, passar de um ponto a outro, percorrer. O que transita, portanto, é a semântica entre o verbo e o complemento verbal de modo direto ou indireto.
Quando indireto, há uma preposição obrigatória entre o verbo e o objeto, o alvo dessa transitividade. Por isso, o complemento é chamado de objeto indireto ou complemento indireto.
Verbo ←[Semântica]→ preposição ↔ objeto
Quando não há a preposição, é o complemento um objeto direto ou complemento direto:
Verbo ←[Semântica]→ objeto
Fiz um teste, tentei descobrir da lista anterios quais eram os Objetos Diretos (OD) e Indiretos (OI), e os distaquei:
- Ele pediu silêncio (OD)
- Ele pediu por justiça (OI)
- Ele pediu um favor a você (OD)
- Ele pediu a você um favor (OD)
- Ele pediu a pizza quente (OD)
- Ele pediu em sua casa silêncio (OD)
- Ele pediu ajuda desesperadamente (OD)
Mas eu errei na frase 3 e 4. Pois o correto é:
- Ele pediu um favor a você (OI)
- Ele pediu a você um favor (OI)
O Objeto Direto responde às perguntas: O quê? ou Quem?
Objeto Indireto responde às perguntas: A quem?, De quê?, Por quem?, entre outras.
Me testarei novamente.
- O mestre agia com prudência.
- Indica o modo como ele agia, e não o quê, quem, por quem, de quê, creio não ser objeto.
- Os alunos pareciam cansados após a lição. (OD)
- O exército avançou até a fronteira.
- Não me parece necessário até a fronteira, pois quem avança, avança para frente. Então creio não ser objeto.
- O camponês ofereceu frutos ao rei. (OD-OI)
- O réu respondeu interrogatório com calma. (OI)
- A criança caiu na piscina.
- Creio não ser objeto, pelo mesmo motivo da primeira frase.
- O cristão ama a Deus acima de tudo. (OI)
- Os exploradores caminharam muitas léguas.
- Não é objeto, pelo mesmo motivo da primeira frase.
- O vinho tornou-se vinagre. (OD)
- O cão obedece ao dono. (OI)
- O leão atacou ao caçador. (OI)
- Eles moram em Roma há anos. (OI)
Correção:
- Correto, “com prudência” indica o modo (circunstância), não é complemento, é Adjunto Adverbial. 2.Errado, “parecer” é verbo de ligação (não-nocional). “Cansados” é um atributo do sujeito ou predicativo do sujeito.
- Correto, “até a fronteira” é lugar/direção, é Adjunto Adverbial.
- Correto
- Correto
- Correto, indica o lugar onde se caiu (Adjunto Adverbial).
- Errado, “amar” é verbo transitivo direto. O “a” antes de “Deus” é por reverência, mas a função é de Objeto Direto.
- Correto, indica a extensão/distância percorrida (Adjunto Adverbial).
- Errado**, “tornar-se” é verbo de ligação (mudança de estado). “Vinagre” é o atributo (Predicativo do Sujeito).
- Correto
- Errado, o uso da preposição “ao” é para evitar ambiguidade ou por estilo, mas é Objeto Direto. (Ps. Puta sacanagem.)
- Errado, “morar” não transita para um objeto; ele exige uma circunstância de lugar (Adjunto Adverbial).
Concluí que a análise deve iniciar pela definição da natureza do verbo (nocional ou não-nocional). Sendo ele nocional, impõe-se a formulação da pergunta exata (e.g., obedece a quem?; atacou o quê?), pois vi que a precisão reside justamente nesses detalhes técnicos. Depois, então, verificar a obrigatoriedade do complemento. Embora eu considere apriendido os conceitos de objeto e transitividade, resta-me entender alguns detalhes na distinção entre predicação completa e incompleta, agente da passiva e regência.
A predicação é o modo pelo qual o verbo declara algo sobre o sujeito. A distinção entre completa e incompleta reside na necessidade de elementos externos para que o enunciado seja inteligível. Enquanto a transitividade foca especificamente na necessidade de o verbo nocional transitar para um objeto, a predicação abrange a estrutura lógica completa: a relação entre o sujeito e o que se afirma dele por meio do verbo (o predicado).
O agente da passiva é quando o agente da ação não é o sujeito (passiente) mas um outro termo. O agente da passiva é usado com objetos diretos
0.1.2 Regência
A regência é a relação de dependência estabelecida entre um termo regente e um termo regido, subdividindo-se em regência verbal (relação entre o verbo e seus complementos) e regência nominal (relação entre o nome e seus complementos).
O termo regente é o núcleo (verbo ou nome) que exige a presença de outro para integrar sua significação; o termo regido é o complemento (objeto ou complemento nominal) que satisfaz essa exigência.
Relacionei regência e valência, o que foi bom, pois a valência determina quantos complementos são necessários; a regência estuda como esses complementos se ligam ao regente.
Quanto aos casos oblíquos mencionados na nota de rodapé, decidi estudá-los em nota distinta. O caso Dativo foi um verdadeiro teste: reconhecer que o Objeto Indireto corresponde ao Dativo em latim foi simples; contudo, distinguir as nuances entre o que é efetivamente um objeto e o que não o é foi o ponto de maior complexidade e exaustivo.
0.1.3 Agente da Passiva
A respeito do Agente da Passiva só pode se relacionar com verbos que possuam transitividade direta. Para haver uma voz passiva, deve existir um alvo direto (objeto direto) na voz ativa capaz de assumir a função de sujeito paciente:
Voz Ativa: Sujeito Agente + Verbo + Objeto Direto. Exemplo: O mestre (Sujeito) ensina a lição (Objeto Direto).
Voz Passiva: Sujeito Paciente + Locução Verbal + Agente da Passiva. Exemplo: A lição (Sujeito Paciente) é ensinada pelo mestre (Agente da Passiva).
Note que “a lição” mudou de função: de alvo do verbo, passou a ser o termo com o qual o verbo concorda.
0.2 QUESTIONÁRIO
1 — Que se entende por complemento, quando se fala em “verbo quanto ao complemento”?
Complemento é termo integrante necessário ao verbo para que sua função sintática seja plena.
2 — Considerados quanto ao complemento, todos os verbos são iguais? Por quê?
Não, pois os verbos distinguem-se pela valência e pela predicação. Há verbos de predicação completa (intransitivos) e de predicação incompleta (transitivos ou de ligação); estes últimos exigem complementos diretos, indiretos ou ambos.
3 — Que é verbo de predicação completa? Que outro nome tem? Exemplos.
É o verbo que tem sua função semântica completa em relação ao sujeito; outro nome é verbo intransitivo.
4 — Quantas espécies existem de verbos de predicação incompleta? Definir cada espécie e exemplificar com orações. (O aluno deve esmerar-se no responder a esta pergunta, porquanto versa sobre um dos mais importantes assuntos. O § 19 deve ser aqui todo explicado pelo aluno, com termos próprios e exemplos abundantes).
Existem quatro espécies principais:
- Transitivo Direto (Nocional): a semântica transita para o objeto sem auxílio de preposição obrigatória.
- Transitivo Indireto (Nocional): a semântica transita para o objeto por meio de uma preposição.
- Transitivo Direto e Indireto (Nocional): a semântica transita para dois objetos simultaneamente.
- Verbo de Ligação (Não-nocional): liga o sujeito a um estado ou qualidade
5 — Como se denominam os complementos dos verbos de predicação incompleta?
Denominam-se complementos verbais (objetos direto e indireto) ou predicativos (no caso dos verbos de ligação).
6 — Os verbos de ligação podem vir com objeto indireto? Como se chama em latim esse dativo? Dê um exemplo (V. nota do § 22).
Sim, apesar da pergunta já responde. Mas é chamado Dativo de Interesse.
7 — Como se chama o complemento do verbo estar? Por quê?
Adjunto Adverbial, pois estar espera um complemento de lugar, modo. Ou Predicativo quanto indica estado.
8 — Que se entende por regência quando se estuda o verbo quanto ao complemento?
A relação de autoridade que o verbo exerce sobre seus complementos, regência verbal.
9 — Faça o quadro sinótico do estudo do verbo quanto ao complemento.
| Tipo de Verbo | Predicação | Complementos |
|---|---|---|
| Intransitivo | Completa | Não exige |
| Transitivo | Incompleta | Objetos |
| De Ligação | Incompleta | Predicativo |
10 — Qual é o quarto elemento que pode aparecer numa oração?
O Objeto Indireto, que no latim corresponde ao caso Dativo.
11 — Que é objeto indireto?
Complemento obrigatório indireto ao verbo.
12 — O objeto indireto vem sempre antecedido de preposição? (Se a resposta for positiva, declarar qual ou quais são as preposições que antecedem o objeto indireto).
Não. O objeto indireto pode ser representado por pronomes oblíquos átonos (como me, te, lhe, nos, vos), que dispensam a preposição expressa. Mas as preposição são:
- Preposições Essenciais (a, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, per, perante, por, sem, sob, sobre e trás)
- Preposições Acidentais (e.g. afora, como, conforme, consoante, durante, exceto, mediante, menos, salvo, segundo, visto)
- Locuções Prepositivas (e.g. a fim de, abaixo de, acerca de, ao lado de, apesar de, em frente a, graças a, perto de, por causa de, junto a)
- Combinações e Contrações (e.g a+o ao, de+a da, em+a na)
13 — Redija duas orações em que haja objeto indireto com a preposição a e duas com a preposição para. (Não empregue os verbos ir, vir nem nenhum outro que indique movimento).
- Entrego a carta a João
- Dou o livro a ele
- Canto para minha amada
- Comprei o presente para você
14 — O objeto indireto português para que caso vai em latim?
Para o caso Dativo.
15 — O dativo latino como se traduz em português?
Traduz-se para Objeto Indireto geralmente com a preposição.
16 — Diga para que caso devem ir as palavras grifadas das seguintes orações:
- O sol fornece luz a todos.
- “sol”: Nominativo
- “todos: Dativo
- O cão do vizinho desobedeceu-me.
- “cão”: Nominativo
- “vizinho”: Genitivo
- “me”: Dativo
- Dei-lhe peras em quantidade.
- “lhe”: Dativo
- Meninos, perdoai aos inimigos.
- “Meninos”: Vocativo
- “inimigos”: Dativo
- Maria e seu irmão não nos deram o prazer de visitar-nos.
- “Maria”: Nominativo
- “irmão”: Nominativo
- “nos”: Dativo