Estas notas dão-se pela necessidade que encontrei de estudar o português. Inicialmente, comecei pelo livro Gramática Latina, de Napoleão M. de Almeida, porém notei certa dificuldade — não com o latim, mas com o português, afinal, Napoleão apresenta o português para relacioná-lo ao latim. Entretanto, não sou versado, nem ao menos estudei de fato o português; ignorei-o por longos anos, e agora dele necessito. Portanto, deduzi ser para mim mais proveitoso iniciar pela Gramática Metódica, também do Prof. Napoleão.

0.1 Linguagem

O professor define:

  • Linguagem (e seus tipos)
  • Palavra (e seus aspectos)
  • Língua/Idioma (e seus tipos)
  • Vocábulo
  • Dicionário / Léxico
  • Frase / Locução
  • Oração
  • Gramática (e seus tipos e partes)

Então descidi criar um diagrama, para conseguir melhor entender, e assimilar tais definições e relações feitas pelo professor. Assim ficou:

Mapa mental sobre linguagem.

A linguagem é o meio pelo qual se estabelece a comunicação, manifestando-se pelos tipos sonoro, mímico ou gráfico. A unidade funcional dos topos é a palavra — que, como representação material (som ou símbolo), denomina-se vocábulo e, como expressão de uma ideia, denomina-se termo. Contudo, o elemento fundamental da linguagem é a frase, pois somente ela constitui a expressão do pensamento. A organização metódica desses elementos em uma língua é realizada pela gramática, que se divide em fonética e morfologia para o estudo da palavra, e sintaxe para o estudo da frase.

0.1.1 Fonética

A Fonética (do grego phoné, som) é a parte da gramática que se dedica ao estudo dos fonemas — as menores unidades sonoras que compõem a fala. A fonética divide-se em três campós:

  • Fonética Descritiva: Analisa os sons em sua produção, transmissão e recepção, abstendo-se de significado.
  • Fonética Histórica: Investiga as transformações sofridas pelos fonemas ao longo da história do idioma.
  • Fonética Sintática: Estuda como os sons das palavras mudam quando elas se juntam para formar frases.

0.1.1.1 Fonemas

É a menor unidade sonora que compõe a fala, podendo ser: vogais, consoantes ou semivogais. Quando escritos, os fonemas são representados por letras (grafemas) e não por sons em si. Por exemplo, “Napoleão” são as letras que representam, em conjunto, o nome do autor do livro que uso aqui em meu estudo; essas letras fazem parte do alfabeto — conjunto de letras de um sistema de escrita, sistematicamente organizadas.

As letras podem ser classificadas em maiúsculas e minúsculas, e podem ser vogais ou consoantes; usarei o alfabeto latino como exemplo:

Maiúsculo Minúsculo Nome IPA Natureza
A a á /a/ Vogal
B b /be/ Consoante
C c /se/ Consoante
D d /de/ Consoante
E e é /ɛ/ Vogal
F f efe /ˈɛfi/ Consoante
G g /ʒe/ Consoante
H h agá /aˈɡa/ Consoante
I i i /i/ Vogal
J j jota /ˈʒɔtɐ/ Consoante
K k /ka/ Consoante
L l ele /ˈɛli/ Consoante
M m eme /ˈɛmi/ Consoante
N n ene /ˈɛni/ Consoante
O o ó /ɔ/ Vogal
P p /pe/ Consoante
Q q quê /ke/ Consoante
R r erre /ˈɛʁi/ Consoante
S s esse /ˈɛsi/ Consoante
T t /te/ Consoante
U u u /u/ Vogal
V v /ve/ Consoante
W w dáblio /ˈdabliu/ Consoante
X x xis /ʃis/ Consoante
Y y ípsilon /ˈipsilõ/ Consoante
Z z /ze/ Consoante

IPA (International Phonetic Alphabet) é um sistema de notação fonética padronizado para representar graficamente os sons da fala humana.

O professor explica ser vogal pela forma como a nomeamos, ou seja, aquelas letras que não necessitam de outras para serem pronunciadas. Note que a, e, i, o, u são pronunciadas por um som simples; já b, c, d, etc., necessitam de um som mais complexo, soando como se houvesse dois sons: bê, cê, dê. Isso explica a etimologia de consoante (com = junto; soante = que soa), pois são letras que soam apenas com o auxílio de uma vogal. Fisicamente, as vogais são sons cujo canal oral de respiração não fica bloqueado, nem constrito o bastante para causar uma fricção audível; é o som relaxado, em fluxo livre.

Essa definição de consoante, contudo, não serve para todos os idiomas. A definição mais correta seria: som em que a corrente de ar encontra na boca um empecilho total (oclusão) ou parcial (estreitamento).

Semivogais ocorrem quando o som de uma vogal se “consonantiza” levemente em um encontro vocálico. No entanto, Napoleão demonstra que essa classificação possui pouca relevância para a fonética que não seja a histórica, sendo hoje uma designação sem utilidade prática.

0.1.1.2 Zona de Articulação

A zona de articulação é o local onde a corrente de ar é interrompida ou modificada para produzir um som específico, sendo classificada como:

  • Bilabial: Contato entre os dois lábios (p, b, m).
  • Labiodental: Lábio inferior toca os dentes superiores (f, v).
  • Dental: Ponta da língua toca os dentes superiores (t, d em português; th no inglês).
  • Alveolar: Língua toca a região logo atrás dos dentes (s, z, n, l, r).
  • Pós-alveolar: Língua logo atrás dos alvéolos, no início do palato (sh, ch /ʃ/ e j /ʒ/).
  • Alveolopalatal: Língua espalhada entre os alvéolos e o palato (e.g. ti, di).
  • Retroflexo: Ponta da língua curva-se para cima e para trás (r caipira [ɻ]).
  • Palatal: Meio da língua toca o “céu da boca” duro (nh [ɲ], lh [ʎ], y [j]).
  • Velar: Parte de trás da língua toca o palato mole (k, g).
  • Uvular: Parte de trás da língua vibra ou toca a úvula (rr [ʀ] no português de Portugal).
  • Faringal: Constrição na garganta/faringe (comum no árabe; raro no alfabeto latino padrão).
  • Glotal: Ar passa ou é bloqueado nas cordas vocais (h aspirado no inglês house [h]).

Para consulta:

Retirada do blog: Professor Alceo

0.1.1.3 Timbre e Intensidade

Sob a ótica de Napoleão, o timbre é a forma acústica da vogal. Esta propriedade é exclusiva dos sons vocálicos visto que, para o professor, as vogais são “notas musicais”. Dado que o ar flui sem impedimentos, as cavidades bucais funcionam como uma caixa de ressonância; a qualidade que emana da variação morfológica desse ressonador é o que define o timbre, permitindo-nos distinguir, por exemplo, o “ê” do “é”.

Em oposição, as consoantes são ruídos. Elas carecem de tonalidade própria, uma vez que resultam de interrupções ou fricções — os pontos de articulação — que dificultam a livre ressonância do som.

Dessa forma, o timbre define a identidade das 17 vogais do português (7 orais tônicas, 5 nasais e 5 átonas reduzidas). A classificação organiza-se da seguinte forma:

Tipo de Timbre Critério Articulatório Vogais (Fonemas/Alofones) Exemplos
Aberto Máxima abertura bucal; língua baixa. /a/, /ɛ/, /ɔ/ (á, é, ó) mar, pé, só
Fechado Abertura média; elevação da língua. /e/, /o/ (ê, ô) mês, fogo
Nasal Ressonância bifásica (boca e nariz). /ɐ̃/, /ẽ/, /ĩ/, /õ/, /ũ/ (ã, ẽ, ĩ, õ, ũ) lã, vento, sim, som, um
Alto (Extremo) Boca quase fechada; língua no ápice. /i/, /u/ (i, u) quis, tu
Reduzido Vogais átonas; timbre vago e fraco. [ɐ], [ɪ], [i], [ʊ], [u] (a, e, i, o, u) casa, vale, pálido,saco, fábula

As 17 vogais que integram o sistema fonético da língua portuguesa, distribuídas conforme os timbres já detalhados, apresentam-se da seguinte forma:

  1. Vogais Orais Tônicas (7):
    • /a/ (Aberto): casa.
    • /ɛ/ (Aberto): pé.
    • /e/ (Fechado): sê.
    • /i/ (Alto/Agudo): ri.
    • /ɔ/ (Aberto): nó.
    • /o/ (Fechado): vô.
    • /u/ (Alto/Agudo): tu.
  2. Vogais Nasais (5):
    • /ɐ̃/: lã.
    • /ẽ/: sento.
    • /ĩ/: linda.
    • /õ/: sonso.
    • /ũ/: mundo.
  3. Vogais Átonas Reduzidas (5): Ocorrem quando a vogal perde sua força em posição átona (especialmente na última sílaba), resultando em um timbre vago e enfraquecido:
    • [ɐ]: mesa (soando próximo ao /â/).
    • [ɪ]: vale (soando próximo ao /i/).
    • [i]: pálido (o i átono e breve).
    • [ʊ]: saco (soando próximo ao /u/).
    • [u]: fábula (o u átono e breve).

O professor classifica o timbre separadamente do “papel da boca e do nariz”; contudo, agrupei-os para facilitar meu entendimento. Ele atribui as tônicas e as átonas à classificação de intensidade, o que me pareceu mais apropriado e de melhor compreensão. “É tônica a vogal de sílaba acentuada”, não obrigatoriamente sob o aspecto gráfico, mas sob o fonético, como em “pernambuCAno”; as demais são classificadas como átonas.

0.1.1.4 Modo de Articulação

Antes de falar de modo de articulação, preciso mapear as 19 consonâncias:

Consonâncias Representação gráfica Exemplos
1. BE b bater, berro, bobo
2. CE c (antes de e, i);
ç (antes de a, o, u);
s (inicial ou acompanhado de consoante);
x (em casos especiais)
cedo, parecido; paço, cabeça, açúcar; sapo, passo, falso; aproximar
3. DE d dado, adesão
4. FE f foi, farmácia
5. JE j, g (antes de e, i) já, gente
6. GUE g (antes de a, o, u);
gu (antes de e, i)
gosto, gato; guerra
7. QUE c (antes de a, o, u);
c (antes de consoante);
qu (antes de e, i)
cão; cristão; quero, orquestra
8. LE l luz, latim
9. ME m Maria
10. NE n nosso, inumano
11. PE p por, para
12. RRE (forte) r (inicial ou acompanhado de consoante) rato, carne, carro, honra
13. RE (brando) r (entre vogais) caro, morada
14. TE t todo, teatro
15. VE v voto, vista
16. XE x, ch xarope, charque
17. ZE z;
s (entre vogais);
x (em casos especiais)
zero; rosa; exemplo
18. LHE lh molhado, olho
19. NHE nh senhor, sonho

Observação: Esta tabela fora extraída da obra do professor Napoleão Mendes de Almeida.

O modo de articulação refere-se à maneira como a corrente de ar é modificada ao passar pelo trato vocal. O professor faz distinção entre o modo de articulação, papel das cordas vocais e o papel da boca e do nariz (via):

Modo Via Cordas Vocais Fonemas / Grafemas Exemplos
Oclusivo Oral Surda p, t, c (duro), q pato, tudo, cão
Sonora b, d, g (duro) bem, dado, gato
Nasal Sonora m, n, nh mãe, nonô, banho
Constritiva-Fricativa Oral Surda f, s, c, ç, x, ch fé, sol, faça, chave
Sonora v, z, s (brando), j, g (brando) voz, zebra, sala, jeito, gelo
Constritiva-Lateral Oral Sonora l, lh lua, filho
Constritiva-Vibrante Oral Sonora r (brando) caro
Surda r (forte), rr rato, carro
  • Oclusiva: ocorre quando há a obstrução total da passagem do ar, seguida de uma soltura súbita (explosão).
  • Constritiva: nela a passagem do ar é estreitada, mas não totalmente bloqueada, gerando um fluxo contínuo. Quando esse fluxo escapa por uma fenda estreita, produzindo um ruído de fricção, denomina-se constritiva-fricativa; se o ar flui entre a língua e as bochechas, é constritiva-lateral; porém, estando a ponta da língua ou a úvula a vibrar rapidamente contra um ponto de articulação, nomeia-se constritiva-vibrante.

Esses modos são, em sua maioria, orais, porém as oclusivas podem ser nasais; disso decorre o estudo das vias ou papel da boca e do nariz. Para além disso, os modos podem ter um aspecto surdo ou sonoro, com exceção da constritiva-lateral, que é exclusivamente sonora.

0.1.1.5 Encontros, Silabas, Hiato e Dígrafos

Uma palavra é escrita na sequência c-v-c… ou v-c-v…, sendo c consoante e v vogal. Contudo, podem ocorrer encontros vocálicos ou consonantais, tais como: c-vv-c…, c-vvv-c…, c-vvvv-c…, c-vvvvv-c… ou v-cc-v…, v-ccc-v…, v-cccc-v…. Exemplos:

  • Vocálicos:
    • c-vv-c: Pai
    • c-vvv-c: Uruguai
    • c-vvvv-c: Piauí
    • c-vvvvv-c: Piauiense
  • Consonantis
    • v-cc-v: Apto
    • v-ccc-v: Instruir
    • v-cccc-v: Monstruoso

Antes de continuar, necessito entender sílabas — o que me parecia muito fácil, mas há pequenas pegadinhas. Então, exercitando e conferindo, entendi que as sílabas são formadas por um único sopro, sendo para mim mais intuitivo que “um pequeno bloco de som que você emite de uma única vez”. Exemplos:

  • Pa-i
  • U-ru-quai
  • Pi-au-i-en-se
  • Ap-to
  • Ins-tru-ir
  • Mons-tru-o-so

Agora que verifiquei meu entendimento sobre as sílabas, posso explicar os encontros. Quando duas vogais se encontram, mas são pronunciadas em um mesmo sopro, chama-se ditongo; porém, quando essas duas vogais separam-se, temos um hiato — uma interrupção ou separação destas por sílaba. Exemplo: saída (sa-í-da); o a-í não permaneceu junto na pronúncia silábica.

E quando há três ou mais vogais juntas? Três vogais que pertencem à mesma sílaba formam um tritongo; mas, se houver um hiato, a sequência pode tornar-se um ditongo seguido de vogal. Exemplo: meia (mei-a), onde a força da emissão as divide, ao contrário de Uruguai (U-ru-guai), que é um tritongo pleno. No caso de encontros com quatro ou mais vogais, como em Piauí (Pi-au-í), sempre haverá hiato; portanto, não há “tetratongo” ou “pentatongo”, pois não existe pronúncia silábica com mais de três vogais.

Já o dígrafo não tem a ver com sílabas, mas sim com a pronúncia. Quando uma consoante e outra letra são pronunciadas como se fossem uma única, a isso chamamos de dígrafo:

Palavra Separação Silábica Tipo de Dígrafo
chave cha-ve Consonantal (Inseparável)
colher co-lher Consonantal (Inseparável)
banho ba-nho Consonantal (Inseparável)
guia gui-a Consonantal (Inseparável)
quilo qui-lo Consonantal (Inseparável)
carro car-ro Consonantal (Separável)
passo pas-so Consonantal (Separável)
descer des-cer Consonantal (Separável)
nao nas-ço Consonantal (Separável)
exceto ex-ce-to Consonantal (Separável)
exsudar ex-su-dar Consonantal (Separável)
tampanga tam-pan-ga Vocálico (Nasal)
tempo tem-po Vocálico (Nasal)
vento ven-to Vocálico (Nasal)
limpo lim-po Vocálico (Nasal)
pingo pin-go Vocálico (Nasal)
bomba bom-ba Vocálico (Nasal)
tonta ton-ta Vocálico (Nasal)
bumbo bum-bo Vocálico (Nasal)
fundo fun-do Vocálico (Nasal)

No gu ou qu, eu cai em uma pegadinha por falta de atenção: em égua o gu não é dígrafo, pois é notável que o g e o u são pronunciados, diferentemente de águia.

Note-se que, na classificação dos dígrafos, existem os consonantais e os vocálicos, bem como os separáveis e os inseparáveis. Durante meus estudos, supus que o dígrafo dependia da divisão silábica, mas compreendi que ele pode estar tanto em uma mesma sílaba quanto separado em duas. Ele é consonantal quando o encontro das letras resulta no som de uma única consoante, e vocálico quando resulta no som de uma única vogal (nasal).